Apresentação

Embora o sistema educacional brasileiro ainda não possua componentes específicos para o estudo da mídia formalmente previstos no currículo, é cada vez maior o número de professores e pesquisadores que se interessam por este tema, dada a relevância da cultura midiática na formação educacional e cultural da maioria de nós.

Evidências  coletadas com pesquisas empíricas têm mostrado que as atividades de mídia-educação são muito eficientes para obter o engajamento de crianças e jovens em tarefas escolares, são terreno fértil para o desenvolvimento da criatividade, da linguagem escrita e falada e habilidades de trabalho em equipe (BUCKINGHAM, 2003; MCNAMARA e GRIFFIN, 2003; BURN e DURRANT, 2008).

aula bernardo vasconcelos midiaeducacao

Atividades do terceiro experimento, sobre Modernismo na literatura e nas artes plásticas, a partir do conceito-chave de audiência

Entretanto, tão logo se disponha a promover o estudo da mídia com seus alunos, o professor depara com duas dificuldades: a falta de formação profissional adequada, já que a grande maioria dos programas de formação de professores ainda não possui componentes curriculares de mídia-educação; e a falta de recursos educacionais específicos. Esta segunda ordem de problemas é tema do nosso projeto.

Aqui, desenvolvemos e testamos materiais pedagógicos de mídia-educação para aulas de Português e Literatura, porém em diálogo com outras áreas do currículo, em especial História, Geografia e Sociologia.

A proposta é executada por uma equipe formada por professores e estudantes de graduação e pós-graduação da Universidade Federal do Triângulo Mineiro, em Uberaba, MG, e conta com apoio da Capes e da Fapemig.

Desde o início de 2014, um grupo formado por dois bolsistas de iniciação científica, uma professora bolsista da educação básica, uma bolsista de iniciação científica júnior e uma estudante de mestrado, trabalha sob coordenação da professora Alexandra Bujokas de Siqueira.

O trabalho se desenvolveu em três etapas. Inicialmente, foi feito um estudo exploratório do cotidiano da sala de aula da professora participante, a fim de compreender a dinâmica das suas aulas e o modo como ela se apropriava do material pedagógico disponível para a aula de Português. O comportamento dos estudantes também era observado em termos de engajamento nas atividades da aula e a relação que tinham com a leitura e a escrita. Nesta etapa, membros da equipe participaram das aulas de Português e Literatura, conversaram com a professora e com os estudantes e fizeram uma observação sistemática dos materiais didáticos comumente usados nas aulas.

Na segunda etapa, foram estudados documentos que norteiam a definição de conceitos estruturantes e componentes curriculares para a área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias. O mesmo trabalho foi feito com os chamados “conceitos-chave da mídia-educação”. Esse levantamento orientou a elaboração de um plano de trabalho básico que, aos poucos, integrasse o repertório da professora, os Parâmetros Curriculares Nacionais e o estudo da mídia, em atividades de leitura e produção de conteúdo, com foco na comunicação.

O quadro abaixo traz uma síntese dos conceitos-chave da mídia-educação:

conceitos chave

Os conceitos-chave da mídia-educação foram então combinados com alguns dos conceitos estruturantes dos PCNEM, resultando neste quadro:

conceitos estruturantes

As unidades do quadro podem ser combinadas e recombinadas de modo que se integre habilidades para o Ensino Médio, conceitos estruturantes da área de Português e Literatura e conceitos-chave da mídia-educação. Assim, por exemplo, pode-se partir da habilidade de comunicar e representar usando a linguagem não-verbal da fotografia e a linguagem verbal do texto em uma atividade que investigue as características do fotojornalismo aplicadas à representação de um tema específico. Os estudantes primeiro exploram fotografias feitas por profissionais sobre aquele tema, à medida em que adquirem instrução sobre técnicas fotográficas e observam de que modo essas técnicas agem para gerar sentidos conotados. Investigam de que modo legendas editadas pelos meios de comunicação onde foram publicadas ajudam a ancorar o sentido das imagens. Nesse processo, desenvolvem também a habilidade de análise e síntese. Depois, aplicando o que aprenderam, produzem um ensaio fotográfico sobre um tema previamente definido, usam softwares para editar as fotos (de modo que enfatizem aspectos como enquadramento, cor, iluminação), e as publicam em um site usado por fotógrafos profissionais como o Flickr, apresentando suas intenções de representação e explicando as técnicas que usaram para gerar as expressões pretendidas. Nesse processo, mobilizaram também as habilidades de contextualizar socialmente a foto (expressando seus pontos de vista em relação ao tema), usaram a linguagem digital e mobilizaram conhecimentos de metalinguagem.

Ao final desta etapa, foram elaborados dois materiais, testados na primeira intervenção na escola, realizada com alunos do Segundo Ano do Ensino Médio. As atividades foram realizadas em dois bimestres, somando 10 aulas.

O primeiro material deu uma roupagem atual ao estudo do Romantismo na literatura, partindo do vídeo-clipe e da ilustração e relacionando-os com a poesia. As aulas mesclaram o livro didático adotado na disciplina com um material multimodal produzido pelos pesquisadores, composto de guia de estudos, vídeos e apresentação para data show. Foram usados tablets para a produção de vídeo-poesias inspiradas no Romantismo.

Os erros e acertos dessa primeira experiência pavimentaram o caminho para o estudo do Realismo, feito com suporte de uma adaptação para os quadrinhos do livro “O Cortiço” de Aluísio de Azevedo e cenas do filme “Cidade de Deus”, de Fernando Meireles. O uso dos quadrinhos e dos enquadramentos do cinema foram a porta de entrada para o estudo da narrativa crua da literatura daquele período. Os alunos experimentaram com a transição da estética romântica para a realista, investigaram o contexto histórico que sustentou essa transição, produziram seus próprios quadrinhos realistas usado o aplicativo Strip Generator e remixaram uma cena do livro em linguagem de radionovela.

A segunda intervenção foi feita no ano seguinte, com alunos do Primeiro Ano do Ensino Médio.  O experimento se chamava “Narrativas expandidas” e partiu do planejamento inicial da professora para primeiro bimestre, que tinha como objetivo fornecer uma introdução à narrativa. O plano inicial foi expandido, integrando três conceitos-chave  da mídia-educação: linguagem, instituições e representação.

O material didático básico era o livro, que reunia contos curtos, uma matéria jornalística sobre os 10 anos do ataque terrorista ao World Trade Center no Estados Unidos e uma charge que mesclava o quadro “O Grito” de Edward Munch com o cenário do ataque. As atividades do livro focavam a identificação dos elementos básicos da narrativa: tempo, espaço, personagens, narrador, recursos linguísticos para indicar passagem de tempo.

Tome-se o exemplo da leitura do texto jornalístico sobre os 10 anos do ataque ao World Trade Center, reproduzida no livro didático. Enquanto as atividades do livro de Português se detêm na interpretação dos recursos de linguagem empregados em um texto singular (analisando as sequências textuais da reportagem da revista, por exemplo), a mídia-educação prioriza leituras comparativas (como revistas com linhas editorias diferentes representam o mesmo assunto, e que elementos da linguagem usam para articular seu ponto de vista). Reportagens devem ser estudas à luz do emprego de técnicas profissionais de edição do texto: que aspectos são destacados no título, qual a perspectiva apresentada no lide, quem são as fontes que mereceram mais destaque e quais fontes foram negligenciadas. Essa análise colhe evidências para sintetizar um ponto de vista: como você leitor, avalia a qualidade desse texto?

A mesma comparação pode ser feita em relação aos textos visuais. Assim, por exemplo, o livro reproduziu uma charge de Jugoslav Vlahovic que substitui o cenário de fundo do quadro “O Grito” de Edvard Munch pelo cenário do World Trade Center em chamas, e propôs um exercício no qual os alunos deveriam usar o texto verbal para explicar quais são as diferenças entre pintura e desenho. Trazidos para a mídia-educação, esses dois textos foram estudados na perspectiva da representação: ao fazer o remix da pintura usando a linguagem da charge mudando o cenário, qual foi o ponto de vista que o autor quis expressar? Os alunos foram então convidados a experimentar com a charge, do mesmo modo como o chargista experimentou com a pintura. Tiramos o fundo do desenho e pedimos que substituíssem o cenário de Nova York pelo cenário de um outro conflito sobre o qual quisessem emitir uma opinião. Essa atividade poderia ser feita com lápis sobre papel ou posteriormente, com o aplicativo Scketchpad.

Jpeg

Charge original

remix charge

Releitura da charge feita com o aplicativo Sketchpad

Mantendo a mesma proposta de usar conteúdos do livro, mas ajustando os exercícios à abordagem da mídia-educação, foi produzido um material impresso complementar com 14 páginas, composto por oito atividades. Os alunos trabalhavam com o livro e com o material complementar ao mesmo tempo, e acompanhavam a condução da professora, que usava uma apresentação visual.

Além das atividades com a reportagem e a charge, os alunos também “desmontaram” o layout de capas de revistas sobre conflitos internacionais e, nesse exercício, aprenderam a separar denotação e conotação, refletiram sobre a dinâmica da combinação de elementos das linguagens verbal e não verbal e a influência dessa dinâmica na negociação de sentidos.

Depois de ganharem alguma experiência com procedimentos analíticos, os alunos receberam instrução pontual sobre linguagem da fotografia, através de uma apresentação visual que reunia imagens de conflitos, da Primeira Guerra Mundial até a invasão do Iraque pelas forças aliadas aos Estados Unidos. Nessa apresentação, eles eram convidados a atentar para as técnicas fotográficas usadas, as conotações que as técnicas criavam e a identificar locais, épocas e personagens das imagens. Essa análise longitudinal e comparativa trouxe à tona as diversas representações associadas aos atores sociais de guerras históricas (Aliados X Eixo, americanos X vietnamitas, ocidente X oriente), dependendo do endereço social do fotógrafo.

A atividade seguinte teve como objetivo fornecer uma síntese do que foi analisado até então (tempo e espaço na narrativa, funções dos personagens, conotação e denotação), estudando um filme publicitário de xampu que narra a história de uma menina acima do peso que precisa se superar para se tornar bailarina. Ela se esforça, enfrenta a inveja de rivais e, ao ser escolhida como bailaria principal em um teste, comemora soltando os cabelos longos e sedosos. A tarefa era identificar as pistas visuais que indicavam local e passagem de tempo, antagonistas e protagonistas, valores subjacentes e que signos representavam esses valores.

A última atividade partiu do conhecimento construído sobre narrativa e introduziu o gênero ensaio fotográfico. Os alunos foram então convidados a produzir um ensaio aplicando as técnicas fotográficas e os elementos da narrativa que aprenderam para desenvolver o tema “Conflito ao meu redor” e publicá-lo no site Flickr.

Vistas em conjunto, as atividades exercitaram as habilidades de comunicar e representar (na releitura da charge, no estudo do filme publicitário e na produção do ensaio fotográfico), investigar e compreender (no estudo do enquadramento jornalístico e da linguagem fotográfica) e contextualizar social e historicamente (no estudo longitudinal das variações nas representações fotográficas sobre guerras históricas).

A última intervenção foi feita com estudantes do Terceiro Ano do Ensino Médio e tratou do Modernismo na Literatura, em diálogo com redação, contexto histórico da República Velha e discussão sobre valores, a partir da “Pesquisa Mundial de Valores”.

Avaliando os experimentos anteriores, a equipe concluiu que a maioria das atividades propostas lidavam muito bem com o diálogo entre os componentes do currículo e os conceitos-chave de linguagem e representação. O conceito-chave de práticas de produção institucionalizadas também havia sido contemplado nos momentos em que os alunos se dedicavam ao estudo de uma linguagem específica e “aprendiam a produzir como os profissionais”. Estava faltando testar modos de integrar o conceito-chave da audiência, e esse foi o ponto de partida para a última incursão em sala de aula.

Tradicionalmente, o ensino do modernismo na literatura oferece uma cronologia do movimento e aborda um conjunto restrito de obras e, para oferecer uma abordagem inovadora, nosso ponto de partida foi o modo como a audiência da época recebeu as manifestações artísticas da Semana de Arte Moderna de 1922, e o que os artistas fizeram para desafiar aquela audiência conservadora, que habitava a cidade de São Paulo, um lugar então esgarçado entre o patriarcalismo resistente por um lado, e o cosmopolitismo trazido pelos filhos da elite que estudavam na Europa, por outro.

Para tratar do modernismo como proposta estética e política, foi discutido o binômio conservadorismo X modernidade, através da Pesquisa Mundial de Valores (World Values Survey)[1]. Usando uma adaptação do questionário (INGLEHART e WELZEL, 2005), os estudantes foram convidados a responder as questões, calcular sua pontuação e depois localizar suas posições no gráfico das nações investigadas na onda do ano 2000.

A conexão entre a oposição de valores da pesquisa e as perspectivas dos artistas da Semana de Arte Moderna de 1922 foi feita através da exploração de uma seleção de textos que incluem trechos de romances e poesias, cartas, capas de revistas, artigos e produção pictórica dos protagonistas da semana. Essa exploração foi guiada por três perguntas: que valores esses artistas assumiam? Quais criticavam? Onde estão essas pistas? A observação das obras foi contraposta à crítica feita pelo escritor Monteiro Lobato[2] ao estilo de pintura de Anita Malfatti, uma das protagonistas da Semana.

A biografia de Mário de Andrade foi estudada à luz da sua prosa & poesia. Os alunos dramatizaram trechos de Macunaíma ao som de “Macuanaíma Ópera Tupi” da cantora Iara Rennó e, ao término dessa primeira atividade, fizeram posteres para dois poemas de Mário de Andrade: “Retrado de Novembro” e “Moça linda e bem tratada”. Usando o aplicativo Canvas, eles foram convidados a pesquisar imagens jornalísticas atuais que ilustrassem os dois poemas e criar suas peças gráficas aplicando fundamentos básicos de design como criação de grid, divisão equilibrada de elementos gráficos e combinação de tipologia considerando os efeitos de legibilidade e visibilidade.

Na atividade seguinte foi feita uma apresentação dialogada de aspectos do contexto histórico e cultural que permitiram o afloramento do Modernismo brasileiro: a proclamação da república, a posse do primeiro presidente civil escolhido por eleição direta, a urbanização motivada pela gradativa industrialização do país, as primeiras políticas de alfabetizaçãoe a criação do Liceu de Artes de Ofícios de São Paulo, inspirado nas Arts & Crafts Schools idealizadas por William Morris, que também abrigava a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Essa contextualização foi concluída com a apresentação do “Manifesto Antropofágico”. Os alunos foram então convidados a escrever seus próprios manifestos, usando um guia básico.

A última atividade foi a realização de uma “releitura antropofágica”, na qual os estudantes escolheram um conteúdo midiático internacional do qual gostavam e fizeram um exercício de simulação “digerindo” aquele texto para gerar uma versão fundamentada na brasilidade, mas que mantivesse filiação com o texto original.

Todos os materiais produzidos podem ser acessados nas respectivas abas no topo do site.

[1] Desde 1981, uma rede internacional de cientistas sociais vem estudando a dinâmica das mudanças de valores e suas conexões com o desenvolvimento econômico e com a democratização das nações. O estudo chega a cobrir 85% da população mundial. A sondagem é feita com um questionário padrão, que vai sendo aprimorado a cada onda, no qual as pessoas devem atribuir pontos segundo uma escala para afirmações que refletem a predominância de valores seculares racionais em oposição a valores tradicionais e os valores de auto-expressão em oposição a valores de sobrevivência. O site oficial do projeto está disponível em < http://www.worldvaluessurvey.org/wvs.jsp>

[2] Publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 20 de dezembro de 1917, o artigo “A Propósito da Exposição Malfatti” dizia que “há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência disso fazem arte pura, guardando os eternos rirmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres. (…) A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. Disponível em < http://www.mac.usp.br/mac/templates/projetos/educativo/paranoia.html>

REFERÊNCIAS

BUCKINGHAM, D. Media education – literacy, learning and contemporary culture. Cambridge: Polity Press, 2003.

________________. Cultural studies goes to school: reading and teaching popular media. 2. ed. Londres: Taylor and Francis, 2004.

BURN, A. e DURRANT, C. (org.). Media teaching. Kent Town: Wakefield Press, 2008.

McNAMARA, G. e GRIFFIN, S. Vision in the curriculum: an evaluation of the FIS project in primary schools in Ireland. Dublin: National Centre for Technology in Education, 2003.

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