Modernismo

Moderninhos em 1920

tupi or not tupi

ATIVIDADES PROPOSTAS PARA ESTE EXPERIMENTO

  1. Usando um diagrama, mapear as concepções dos estudantes sobre a palavra “moderno”
  2. Usando uma versão adaptada do questionário  da Pesquisa Mundial de Valores* (World Values Survey), discutir a proposta estética e política implícita no binômino binômio conservadorismo X modernidade;
  3. Observando as obras, apresentar e discutir ideias modernistas nos campos estético, político e de costumes propostos por quatro personagens da Semana de Arte Moderna de 1922: Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Mário de Andrade e Heitor Villa Lobos;
  4. Fazer a releitura de uma poesia de Mário de Andrade em um pôster, usando o aplicativo Canva;
  5. Estudar trechos do “Manifesto Antropofágico” e, usando um guia, elaborar um manifesto.

 

MATERIAIS USADOS

Apresentação do professor aqui

Material do aluno aqui

Questionário adaptado da Pesquisa Mundial de Valores aqui

Aplicativo online Canva aqui

Tutorial para usar o Canva aqui

 

BREVE RELATO DA NOSSA EXPERIÊNCIA

Avaliando os experimentos anteriores (Introdução à narrativa, Romantismo e Realismo), percebemos que maioria das atividades que havíamos desenvolvido até ali lidavam muito bem com os conceitos-chave de linguagem e representação. O conceito-chave de práticas de produção institucionalizadas também havia sido contemplado nos momentos em que os alunos se dedicavam ao estudo de uma linguagem específica e “aprendiam a produzir como os profissionais”. Estava faltando testar modos de integrar o conceito-chave da audiência, e esse foi o ponto de partida para a nossa última incursão em sala de aula.

Outra questão trazida pela equipe foi ponderar que, tradicionalmente, o ensino do Modernismo na literatura oferece uma cronologia do movimento e aborda um conjunto restrito de obras, com ênfase no romance e na poesia. A professora da educação básica que integrava a equipe informou que raramente conseguia sequer chegar a esta que é a última escola literária estudada no Ensino Médio, e que não tinha tanta experiência com o assunto, como tinha com os movimentos anteriores. A

Decidimos então aproveitar o contexto de incertezas e explorar novas fronteiras para a aula de Português. O ponto de partida foi o modo como a audiência da época recebeu as manifestações artísticas da Semana de Arte Moderna de 1922, e o que os artistas fizeram para desafiar aquela audiência conservadora, que habitava a cidade de São Paulo, um lugar então esgarçado entre o patriarcalismo resistente por um lado, e o cosmopolitismo trazido pelos filhos da elite que estudavam na Europa, por outro.

Para tratar do modernismo como proposta estética e política, começamos discutindo o binômio “conservadorismo X modernidade”, abordando a “Pesquisa Mundial de Valores (World Values Survey)*.

Usando a adaptação do questionário disponível ali em cima, os estudantes foram convidados a responder as questões, calcular sua pontuação e depois localizar suas posições no gráfico das nações investigadas na onda do ano 2000. Observando a localização do Brasil no gráfico e identificando suas localizações pessoais, eles começaram então a discutir os dois binômios de valores associados às mudanças culturais trazidas pela modernização:  1.seculares racionais em oposição a valores tradicionais; 2. valores de auto-expressão em oposição a valores de sobrevivência (veja aqui uma descrição mais detalhada dessa pesquisa).

A seguir, a conexão entre a oposição de valores da pesquisa e as perspectivas dos artistas da Semana de Arte Moderna de 1922 foi feita através da exploração de uma seleção de textos que incluíram trechos de romances e poesias, cartas, capas de revistas, fotografias, artigos e produção pictórica dos protagonistas da semana. Essa exploração foi guiada por três perguntas: que valores esses artistas assumiam? Quais criticavam? Onde estão essas pistas? A observação das obras, em especial as de Anita Malfatti,  foi contraposta à crítica feita pelo escritor Monteiro Lobato** ao estilo da pintora, uma das protagonistas da Semana. Os estudantes foram convidados a imaginar que valores estéticos pessoas que partilhavam da opinião de Monteiro Lobato tinham para manifestar tal ordem de estranhamento às obras modernistas.

Ao término dessa discussão, partimos para a primeira atividade prática. Usando o aplicativo “Canva“, os alunos deveriam escolher entre dois poemas de Mário de Andrade e elaborar um poster, mixando o texto com imagens atuais. No primeiro poema, “Retrato de Novembro” o texto deveria ser ilustrado com imagens de manifestações que os estudantes conhecessem. No segundo poema “Moça linda bem tratada”, o poster deveria combinar imagens da mulher que o autor estava criticando e, por inferência, que mulher ele elogiava.

Na atividade seguinte fizemos uma apresentação dialogada de aspectos do contexto histórico e cultural que permitiram o afloramento do Modernismo brasileiro: a proclamação da república, a posse do primeiro presidente civil escolhido por eleição direta, a urbanização motivada pela gradativa industrialização do país, as primeiras políticas de alfabetização e a criação do Liceu de Artes de Ofícios de São Paulo, inspirado nas Arts & Crafts Schools idealizadas por William Morris, que também abrigava a Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Essa contextualização preparou o caminho para a atividade mais radical do experimento: o estudo do “Manifesto Antropofágico” escrito pelo poeta Oswald de Andrade e publicado na Revista de Antropofagia. Primeiro, cada membro da equipe escolheu um trecho do manifesto, preparou uma projeção e escolheu um modo de performatizá-la na sala de aula: berrando a frase, cantando-a, escrevendo na lousa… Essa atitude inesperada despertou a curiosodade dos estudantes. A partir daí, escolhemos trechos e fomos “dissecando” o possível significado, à luz de tudo o que havíamos estudado nas atividades anteriores.

Na sequência, iniciamos as “atividades de livre manifestação”. Na primeira, reproduzimos na sala de aula o famoso Speaker’s Corner do Hyde Park, em Londres: os alunos foram convidados ir até aquele canto para falar do que quisessem.

corner

Por fim, usando um tutorial impresso, apresentamos um passo-a-passo para a elaboração de um manifesto. Os alunos elaboraram um diagrama de ideias e depois editaram o manifesto no mesmo aplicativo Canva, usado anteriormente.

Vistas em conjunto, as atividades com o modernismo conectaram passado e presente, arte, política, valores e comportamento, discutidos através da literatura e da pintura produzidos há quase 100 anos. Nesse tempo, as  respostas da audiência mudaram, mas não muito…

 

* Desde 1981, uma rede internacional de cientistas sociais vem estudando a dinâmica das mudanças de valores e suas conexões com o desenvolvimento econômico e com a democratização das nações. O estudo chega a cobrir 85% da população mundial. A sondagem é feita com um questionário padrão, que vai sendo aprimorado a cada onda, no qual as pessoas devem atribuir pontos segundo uma escala para afirmações que refletem a predominância de valores seculares racionais em oposição a valores tradicionais e os valores de auto-expressão em oposição a valores de sobrevivência. O site oficial do projeto está disponível em < http://www.worldvaluessurvey.org/wvs.jsp>

** Publicado no jornal “O Estado de São Paulo” em 20 de dezembro de 1917, o artigo “A Propósito da Exposição Malfatti” dizia que “há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em conseqüência disso fazem arte pura, guardando os eternos rirmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres. (…) A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. Disponível em < http://www.mac.usp.br/mac/templates/projetos/educativo/paranoia.html>

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